Quando Males Nos Alcançam

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“…tantos males e angústias o alcançarão, que dirá, naquele dia: Não me alcançaram estes males por não estar o meu Deus no meio de mim?”   (Deuteronômio 31. 17)

 

Um antigo provérbio chinês diz que “você não pode impedir que abutres sobrevoem sua cabeça, mas pode impedir que eles façam um ninho nela”. Males existem no mundo ao nosso redor todo o tempo. Entendemos males como a totalidade de atos, experiências e coisas indesejáveis ou nocivas que nos são prejudiciais, que nos ferem, ou que concorrem para o nosso dano ou ruína. Um mal é aquilo que é nocivo para a felicidade ou o bem-estar físico ou moral de alguém. Mas, a questão pivotal não é saber se males “sobrevoam” ou não as nossas cabeças, as nossas almas, as nossas vidas, mas se eles fizeram ninho nelas; se os males nos alcançaram!

O sentido de alcançar (hebr. matzah) nesse texto é o “entrar em união com”. Em outras palavras, a pergunta não é se males estão acontecendo em nossa vida, mas se eles “entraram em união” com a nossa alma! Se eles nos venceram! O Salmista explica esse sentido ao ilustrar os males com “muitas águas”: “Pelo que todo aquele que é santo orará a Ti, a tempo de Te poder achar; até no transbordar de muitas águas, estas a ele não chegarão” (Salmo 32. 6). A pergunta não é se águas transbordaram, mas se elas chegaram à nossa alma; se elas nos alcançaram.

Males nos alcançam quando a nossa reação a eles é a angústia (hebr. tsarah). Um exemplo é a história de Jacó. No dia em que Diná, sua filha, foi violentada por Siquém provocando um aberto conflito entre a família de Jacó e a família de Siquém (Gênesis 35), Jacó decide mudar-se para Betel e assim comunica a decisão: “Levantemo-nos e subamos a Betel; ali farei um altar ao Deus que me respondeu no dia da minha angústia e que foi comigo no caminho por onde andei”. Examinando o episódio de Betel (Gênesis 27 e 28), identificado por Jacó como o seu “dia de angústia”, vemos que Jacó fugiu de sua casa, foi tomado de medo, ausência de paz e, sobretudo, de um sentimento da ausência de Deus (Gênesis 28: 16). Angústia é tudo isso e um pouco mais, e a presença dela em nossa alma demonstra que males não apenas sobrevoaram as nossas cabeças, mas fizeram ninho em nossas vidas.

Males nos alcançam quando Deus não está em nosso meio. A pergunta que segundo o próprio Deus será feita por todo aquele que foi alcançado por males é esta: “não me alcançaram estes males por não estar o meu Deus no meio de mim?” O resultado para o pecado obstinado, i.e., da reincidência pecaminosa proposital, insistente, obstinada e rebelde a Deus e Sua Palavra, é que Deus esconde o rosto de tal pecador: “desampará-lo-ei, e esconderei o Meu rosto dele, para que seja devorado” (conf. Romanos 1: 18, 24, 26, 27 e 28). A causa da obstinação está clara: “Deus não está no meio”, i.e., Deus não está ocupando o centro da existência, da vida do pecador obstinado (conf. Salmo 46: 1-5). Outras coisas, pessoas, interesses estão ocupando a atenção e o foco da vida da pessoa, de modo que Deus foi, por assim dizer, colocado de lado, na periferia da vida.

A vida se nos apresenta como repleta de desafios e males. Não há possibilidade de fugir deles! Você não pode impedir que males sobrevoem sua vida, mas eles não precisam fazer um ninho na sua alma. Se Deus estiver no centro da vida, então, no transbordar das muitas águas, elas não nos alcançarão.

 

Pr. Josué Mello Salgado

Igreja Memorial Batista de Brasília.