Quando ferimos os outros

O treino se encaminhava para o seu final. Não passava agora de um momento recreativo. Na gíria do futebol, chamam a este tempo de “rachão” ou, nas ruas, de “pelada”.

A diversão se encaminhava para o fim.

Então, aconteceu.

Um jogador, perto da grande área, deu um “carrinho” num colega. Na gíria do esporte, dar um “carrinho” é tentar tirar a bola do adversário, por meio de um recurso violento em que o jogador se atira contra o adversário, deslizando-se na grama, com os pés levantados. Quase sempre, o golpe é dado com o outro atleta de costas. A regra manda advertir ou mesmo expulsar o agressor.

O treino do Coritiba caminhava para o final quando o atacante Lincoln deu um carrinho no também atacante Bottinelli.

Bottineli saiu direto para o hospital, de onde chegou o diagnóstico: fratura do tornozelo, implicando num cirurgia e num afastamento de vários meses dos campos.

Lincoln ficou arrasado. Logo após o incidente, disse, ainda na beira do campo, que, se pudesse voltar no tempo, trocaria de lugar com Bottinelli.

No hospital, chorou, com o companheiro, que o perdoou.

O gesto demonstra que todos somos capazes de errar.

Crescemos quando, tendo errado, tomamos a atitude digna: a de pedir perdão, não para atender a uma expectativa dos outros, mas como um desejo profundo do nosso coração, de um coração arrasado pelo que fizemos, seja uma imprudência, um excesso, um deslize ou uma crueldade.

Somos capazes de errar, com o desejo de nunca mais errar do mesmo modo.

Sejamos também capazes de pedir perdão e, se for possível, reparar o que fizemos ou minimizar as suas consequencias, sem esperar retribuição.

Fonte: Prazer da Palavra