O poder da picuinha

Todos nós queremos ser relevantes: queremos fazer algo que torne melhores as nossas vidas e as dos outros, a partir do que nós cremos.

O sentido da relevância, que nos dá sentido para viver, está na contramão do egoísmo, logo, é algo de natureza altruísta.

Ao propor algo, para vidas melhores, enfrentamos oposições, que são SEMPRE salutares. A oposição faz com que repensemos nossa proposta e até mesmo nos leva a desistir dela, ao nos mostrar a sua inconsistência. O altruísmo nos leva a renunciar (sempre um tapa no egoísmo) e, logo depois, buscar outros caminhos. Bem-vindas as oposições, que nos ajudam a seguir em frente.

O que realmente estiola a alma é a picuinha.

A palavra parece vir do bico da ave. A provável etimologia já diz tudo. Uma bicada dói.

Você tem uma ideia, digamos, uma grande ideia. Apresenta-a. O único a fazer um comentário se refere a uma vírgula fora de lugar.

Você dirige um espetáculo, bonito, aplaudido, mas alguém vem reclamar que a sua gravata não combinava com o paletó.

Você se esforça para fazer uma palestra, com horas a fio de estudo, mas as perguntas, ao final, nada têm a ver com o tema abordado.

Com a multiplicação das picuinhas (uma só você mata no peito…), você começa a se perguntar: Para que buscar a solução para um problema? Para que preparar uma palestra ou escrever um livro? Para que ensaiar tanto para cantar ou tocar ou reger?

Com o tempo, as perguntas se tornam respostas do tipo “não vale a pena” ou “nada vale a pena” ou “custa menos deixar como está”.

Quando isto acontece, o egoísmo vence o altruísmo.

E a alma se apequena.

Não podemos evitar as picuinhas, mas devemos resistir ao poder delas sobre nós, se queremos ser relevantes.

Fonte: Prazer da Palavra