As primeiras produções literárias produzidas pelos discípulos de Jesus foram as cartas de Paulo, escritas na década de 50. Marcos, geralmente considerado o primeiro dos evangelhos a se redigido, provavelmente foi produzido durante a guerra judaica (66-70 d.C.), ou seja, cerca de três décadas após a crucificação de Jesus. Infelizmente não dispomos de manuscritos originais produzidos pelos escritores bíblicos (chamados de autógrafos).

O mais antigo registro dos Evangelhos é um papiro (conhecido tecnicamente como Papiro P 52) que contém um fragmento do Evangelho de João, datado para 125 d.C. Além dos diversos fragmentos de papiro, os livros do Novo Testamento também são citados em escritos produzidos pelos chamados Pais da Igreja, líderes cristãos que viveram após a morte dos apóstolos. Dentre eles podemos destacar Justino Mártir, Irineu, Clemente de Alexandria e Orígenes. Mas há ainda outros registros importantes.

Além dos fragmentos de papiro e citações antigas feitas pelos primeiros cristãos, os mais antigos códices (folhas de couro encadernadas como um livro) do Novo Testamento são o Códice Sinaítico (contém o Novo Testamento inteiro) e o Códice Vaticano (faltam algumas cartas paulinas e o Apocalipse), ambos do século IV e descobertos somente no século XIX. Mas pode estar se perguntando: qual era a base para nossas traduções antes da descoberta desses dois manuscritos?

Antes da descoberta destes dois documentos, as traduções da Bíblia eram feitas a partir de manuscritos medievais. O Novo Testamento em alemão utilizado por Lutero, por exemplo, foi traduzido a partir desses textos medievais (tais traduções ficaram conhecidas pela denominação “Textus Receptus”). A versão bíblica intitulada Almeida Corrigida e Fiel (ACF) ainda usa como base para sua tradução do Novo Testamento os mesmos manuscritos medievais.

Outras versões, como a Nova Versão Internacional (NVI), a Almeida Revista e Atualizada (ARA) e a Bíblia de Jerusalém (BJ), usam diversos manuscritos para suas traduções, dentre eles o Sinaítico e o Vaticano, bem mais antigos que os manuscritos medievais usados pelos tradutores da ACF.  Isso explica pequenas diferenças nas traduções entre os que usam Textus Receptus e os que utilizam os manuscritos mais antigos.

Uma das mais frequentes críticas às edições modernas como a NVI é a omissão da Comma Johanneum, que é aquele texto que normalmente aparece entre colchetes em 1 Jo 5,7-8. O texto foi omitido (ou colocado entre colchetes) porque não aparece nos melhores manuscritos gregos. Tal omissão provocou muita inquietação no meio cristão, pois foi levantada a hipótese de que a verdadeira intenção dos responsáveis por essas versões é negar a doutrina da trindade. Será?

O mais provável mesmo é que esse texto tenha sido acrescentado mais tarde ao texto original. Mas você não precisa se preocupar: mesmo que Comma Johanneum de fato seja um acréscimo feito por um cristão piedoso, há uma variedade de outros textos que podem ser usados para apoiar a doutrina da trindade (veja p. ex. Mt 28,19; Jo 1,14; 1Co 8,6; Fp 2,7-10; 1Jo 5,20).

Jones Mendonça.
Professor de Antigo Testamento
no Seminário Teológico Batista Carioca

Compartilhe: