A tradição judaico-cristã atribui a Moisés (séc. XV a XIII a.C.) a escrita dos primeiros livros do Antigo Testamento, o Pentateuco. Há muitas controvérsias em torno de que idioma ele teria escrito este bloco de livros, uma vez que o hebraico – idioma dos hebreus – ainda não existia. Há quem sugira o egípcio, ou o fenício, ou, quem sabe, alguma espécie de alfabeto primitivo inspirado em hieróglifos egípcios (chamado de proto-sinaítico). Infelizmente não temos exemplares de textos do Antigo Testamento desse período preservados.

Alguns estudiosos sustentam que os primeiros textos do Antigo Testamento foram produzidos por volta do século X a.C., período em que a Bíblia situa os reinados de Davi e Salomão. O surgimento da monarquia teria permitido o desenvolvimento de atividades literárias, fazendo nascer os primeiros registros das memórias dos hebreus, seus cânticos celebrando vitórias, suas preces, seus códigos de conduta, suas aspirações mais profundas. Outros pensam que a atividade literária só surgiu mais tarde, cerca de 200 anos depois.

Deixando de lado toda essa controvérsia, que muitas vezes desperta debates acalorados, certo mesmo é que o texto mais antigo contendo uma passagem do Antigo Testamento está registrado em dois pequenos rolos de prata encontrados no vale de Hinnon, em Jerusalém. Os documentos – dois amuletos -, datados para os séculos VI ou VII a.C., contém as bênçãos sacerdotais de Nm 6.24-26:

“Deus te abençoe e te guarde,

O Senhor faça resplandecer o seu rosto sobre ti, e tenha misericórdia de ti;
O Senhor levante sobre ti o seu rosto, e te dê a paz”.

Sem dúvida uma descoberta surpreendente! Em segundo lugar no quesito antiguidade aparece o papiro de Nash, encontrado em 1902 no Egito e datado para a metade do século II a.C.. Ele contém o Decálogo (Ex 20.2-17 /Dt 5.6-21) e o chamado “Shemá Israel” (“Ouve, Israel”), de Dt 6.4-5. Desde o mês de dezembro de 2012 é possível consultá-lo online no site da Biblioteca Digital da Universidade de Cambridge.

Fora os manuscritos de Ketef Hinon e o papiro de Nash, os registros mais antigos de textos do Antigo Testamento em hebraico foram encontrados entre os anos de 1947 e 1956 em algumas grutas em Qumran, às margens do Mar Morto. Datados em geral de 100 a.C. – 100 d.C., esses documentos – escritos em pergaminho, papiro ou cobre – ficaram conhecidos como Manuscritos do Mar Morto (MMM). De todos os livros que compõem a Bíblia hebraica, apenas Neemias e Ester não foram encontrados em Qumran.

A descoberta, considerada um dos mais importantes achados arqueológicos do século XX, ganhou as manchetes dos jornais de todo o mundo, uma vez que eram cerca de mil anos mais antigos que os manuscritos usados até então como base para nossas traduções (cópias medievais do século X d.C.). Contrariando a expectativa de alguns céticos, as diferenças entre os textos dos manuscritos do Mar Morto e os códices medievais eram insignificantes.

No próximo, eu falarei sobre os manuscritos do Novo Testamento.

 

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