“Quando acabou meu tempo no centro de recuperação recebi uma carta de alforria. Isso mesmo. Não existe outro nome pra isso. Meses trabalhando pesado. Construindo muro, cavando buraco, fazendo jejum porque não tinha comida. E no final uma carta dizendo que eu estava livre. Nove meses sem usar drogas. Nove meses sem ver minha família. Continuava sem documentos e sem trabalho. Mas tinha uma carta. Uma carta que dizia que eu cumpri meu tempo de tratamento e agora já podia trabalhar. Na verdade, estava livre para voltar a morar na rua. Afinal, quem me daria emprego se eu não tinha mais nem onde tomar banho? Não demorou para me entupir de drogas de novo. Fiquei completamente fora de órbita. Não sabia mais o que eram dias, meses ou anos. Aqueles poucos metros entre a linha do trem onde passava a noite usando droga e a caçamba de lixo onde passava o dia dormindo era a minha caverna onde não enxergava a luz do lado de fora. Saí de um lugar onde não sabia o que acontecia do outro lado do muro, e na rua e nas drogas continuei preso sem enxergar a vida ao meu redor.

“Estava com fome e quando decidi levantar para buscar uma nova pedra ouvi longe uma canção. Alguns pneus queimavam daquele lado. A fogueira refletia sombras na pilastra do viaduto. Não conseguia ver direito. A fumaça incomodava muito. Apertei bem os olhos e pisquei rápido para acostumar o olhar até que vi homens e mulheres tocando no violão uma canção que aprendi ainda criança. Mantive certa distância para cantar sem ser ouvido. Um deles se aproximou e continuou cantando sentado ao meu lado. Chorei. Quando a música terminou perguntou onde a aprendi. Não acreditava que ele estava falando comigo. Eu estava tão sujo que ninguém se aproximava. Cheguei a duvidar se estava realmente vivo. Eles me levaram pra igreja. Tomei um banho. Comi um trem. Aos poucos fui recobrando os sentidos.

“Consegui um abrigo. Do posto de saúde me mandaram para o Caps-AD, onde tratam quem usa álcool ou drogas. Gostei muito da pessoa que me recebeu. Sem julgamentos ou preconceitos. Ouviu minhas angústias. Confiei nela. Ia pra lá quase todo dia. Aos domingos me encontrava com o grupo do violão. Mas continuava usando droga sempre que me ofereciam ou tinha dinheiro. No Caps-AD participei de uma oficina de jornal. Gostei muito porque queria ser jornalista. No abrigo ajudei a montar um jornal também. Foi meu melhor momento. Fiquei tão animado e envolvido com o projeto do jornal que diminuí muito o uso da droga. Comecei a trabalhar. Sem tempo livre e realizado já não andava mais com quem se drogava. Fiquei limpo um bom tempo. Meu terapeuta disse que em dois meses avaliaria minha situação para me dar alta. O que deveria ser uma alegria para qualquer um que está tratando uma doença, me encheu de medo. Recaí. Perdi o emprego. Mas o pessoal do violão não desistiu de mim. Fui abraçado. Mas não era aquele abraço de quem só ama quando você vence. Eles investiram em mim. Fracassei e eles continuaram comigo. Retomei o tratamento. Voltei a estudar e trabalhar.

“Tomei coragem e fui falar com meu irmão. Ele não quis me receber. Disse que só depois que terminasse o tratamento poderia me ajudar. Mas não foi me ver nenhum dia sequer nos nove meses que fiquei naquele centro de recuperação! O que ele não entende é que naquela prisão, sozinho, não era possível enfrentar meus medos. Ele suportou bem a morte de nossos pais, sempre foi mais forte. Eu sempre tive medo. Ele acha que eu não quero nada, que sou um sem-vergonha. Mas eu luto. Muitas vezes perco. Ele não acredita.

“Enquanto estava trancado no centro de recuperação, claro, eu não usava droga. Quando dava vontade de ir embora, tinha muita gente pra me convencer do contrário. Mas também não vivia. Alforriado, debaixo daquele viaduto e na linha do trem eu também não vivia. Mas agora, quando encaro meus medos, quando tento ganhar o mundo, sucumbo. Os olhos me doem. E penso em voltar para dentro do muro, me esconder na caçamba de lixo. Tenho vontade de morrer…

“Outro dia ouvi na igreja que quando reconhecemos nossas fraquezas, somos fortes. Nesse dia fiquei com vontade de viver. O jovem que toca violão disse que se ainda estou vivo é porque Deus acredita em mim. Vou vivendo.”

Marcelo Jaccoud da Costa

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